Percepção no núcleo do crime


PERCEPÇÃO NO NÚCLEO DO CRIME

 

Depois de discorrer sobre meu exclusivo arquétipo entendimento empírico da (PSP) – (Percepção da Suspeição Policial), publicado no site da (PMSC) em (13/12/2008), (www.pm.sc.gov.br), delinearei para o futuro sobre a minha peculiar experiência da (PNC) – (Percepção no Núcleo do Crime).

 

Poderão antecipadamente rotular-me de aventureiro por aludir contexto que não transluze a nossa realidade, sob a ótica de que não “somos peritos” e muito menos “devemos influenciar na lide alheia”, porque peremptoriamente não é nossa jurisdição.

 

Demonstrarei totalmente ao contrário, exatamente pelas dessemelhantes ações entre o ato de “periciar e influenciar” do conjunto de elementos que “percebemos e conhecemos” no cenário emblemático do núcleo de um crime, até porque como policiais modernos investimos na agudeza e não na repressão, razões pelas quais as diligências preliminares se iniciam no núcleo de um crime, tornando-as fundamental para direcionar todo trabalho consecutivo da investigação com o escopo de embasar provas na decisão jurisdicional, que tanto poderão ser confirmadas quanto desmentidas por suas versões, podendo um relatório circunstancial agregar maiores valores que o próprio depoimento testemunhal.  

 

Ressaltando que meios de provas são todos os instrumentos pessoais ou materiais aptos ao processo à convicção da existência ou inexistência de um fato, elementos que leva ao convencimento do juiz a respeito da veracidade, ainda que sem a certeza absoluta, mas o suficiente na sua persuasão, pelo qual a pericial não é a única amostra válida admitida, devendo ser adequadas as testemunhais e as documentais, levadas todas em consideração, não existindo hierarquia entre si, contudo a prova técnica é considerada a mais imparcial e objetiva produzida por profissionais capacitados e hábeis a emitir seus pareceres.

 

 Admissivelmente que não somos exímios conhecedores hábeis das técnicas e experimentos do procedimento pericial, do mesmo modo que não somos Juizes e muito menos Supremos Pontífices para instruirmos processo de condenação criminal ou beatificação, razões que a nossa (PNC) – (Percepção no Núcleo do Crime) se interpretadas e registradas com substância serão imperiosamente avaliadas e acolhidas durante o processo julgador como amostra irrefutável de convencimento e, por conseguinte levando a condenação do autor.

 

Preliminarmente devo grifar que embora não somos Peritos Criminalistas, Médicos Legistas e nem mesmo Papiloscopistas, nem por isso devemos permanecer inertes no núcleo de um crime apenas como figuras decorativas, pois além da competência pelo domínio do cenário criminoso devemos de modo inclusivo principiar diligências a elaborar teoria inicial com base no exame visual, se aplicando ao máximo para tentar compreender toda a complexidade delitiva, especialmente em se tratando de crime contra a vida, que por sua hediondez não somente conhecer o modo sintetizado, mas minuciosamente todo o seu estratagema, como identificação dos envolvidos, vítimas, pressupostos autores, circunstâncias, liames por suas hipóteses, causas preliminares da morte e todos os elementos presumíveis de convicção.

 

A propósito sobre as três características periciais devo elucidar que são laborações diferenciadas por suas habilidades, cabendo ao (Criminalista) o levantamento e estudo do local e cena do crime, aquilatando como tudo ocorreu e em quais circunstâncias, elucidando quais os meios e equipamentos empregados na prática do crime; Ao (Legista) cabe examinar e proceder à necropsia no corpo da vítima para desvendar qual à causa da morte; Ao (Papiloscopista) os exames pelas impressões digitais tanto da vítima, quanto do criminoso deixado na cena do crime.

 

Equacionando os trabalhos laborados pelos três peritos dificilmente teremos um crime sem solução, pois a soma dessas conclusões será levada como instrumento probatório que seguramente será o momento mais importante do processo, a dar cumprimento aos princípios constitucionais do contraditório e da ampla defesa, resultado conclusivo no que diz respeito à materialidade do crime, embasando substância para a livre apreciação e persuasão racional do magistrado.

 

Ordinalmente somos nós policiais militares os primeiros a adentrar na cena e local do crime, realizando em muitas vezes a prisão do criminoso quando ainda no local ou suas adjacências, e comumente se necessário também acionamos os para-médicos e inevitavelmente somos os responsáveis pela segurança e isolamento do núcleo principal da cena do crime, onde efetivamente as provas estão concentradas para que nenhuma evidência seja tocada ou destruída.

 

Explica-se no jargão policial que não devemos permitir a “prostituição das provas da cena de um crime”, sob pena de responder pela tipicidade do artigo 347 do CPB (Fraude Processual) inovar artificiosamente, o estado de lugar, de coisa ou de pessoa, com o fim de induzir em erro o juiz ou o perito.

 

De maneira que as diligências preliminares por nós realizadas são exigentemente doutrinadas pelo artigo 6º do CPP, de confiabilidade dos policiais militares que chegam à ocorrência, devendo ser céleres e plausíveis por todo o contexto do conhecimento percebido e visualizado, com ênfase nas circunstâncias e conexão admissível do crime, levantando hipóteses & hipóteses, com detalhes específicos, a quem sabe, até mesmo em se tratando de homicídio submergir transcendental “in mente” nas razões cerebrais da vítima para compreender os meandros que permearam a sua extenuação.

 

Estabelece o artigo 6º do CPP que a autoridade policial logo que tiver conhecimento da prática da infração penal deverá dirigir-se ao local e providenciar para que não se alterem o estado e conservação das coisas até a chegada dos peritos criminais; apreenderá objetos que tiverem relação com o fato após liberados pelos peritos criminais; colherá todas as provas que servirem para o esclarecimento do fato e suas circunstâncias; ouvirá ofendidos e implicados, e fundamentalmente procederá ao reconhecimento de pessoas e coisas para sua elucidação. 

 

Mister se faz ressaltar, pleonasticamente que além de não sermos peritos criminalistas, também não somos profetas, astrólogos, e nem mesmo entomologistas, cientistas e psicólogos forenses, mas temos o dever obrigacional de operar com substância na ponderação das provas como se especialistas fossemos, a inquirir testemunhas, perquirir familiares, interrogar metediços em janelas indiscretas, consultar integrantes da perícia, e seguir todas as pistas e indícios possíveis para elucidação, pois a perícia é do perito e as diligências são nossas.  

 

A elucidação completa de um crime depende do dinamismo e instância da equipe que o investiga, de maneira que perícia renunciada adicionada à diligência incapacitada certamente será mais um processo entorpecido no cartório sem a devida solução.

 

Os procedimentos iniciais adotados deverão no mínimo revelar as diferentes situações basilares apresentadas diante de um cadáver, se foi “homicídio”, “suicídio” ou “morte eventual”, para sabermos distinguir o que de fato fazemos naquele exato local, desobrigando-nos pelo visualizado do registro inicial pelo qual fomos despachados, pois será uma contradição ululante constatarmos tratar-se de um assassinato e ultimarmos como na sua origem do despacho, por um simples encontro de cadáver.

 

A primeira coisa que devemos levar em consideração antes de principiarmos a investigação é comportarmos com mentalidade de como o criminoso perpetrou o delito, analisando meticulosamente as possibilidades das pistas deixadas para trás com mentalidade criminal, a considerar todos os fatores que podem levar à vulnerabilidade organizacional do arquétipo delitivo, capacitando-nos a perceber e enxergar os diagramas pelas evidências deixadas e compilá-las detalhadamente com ampla probabilidade por todos os achados na investigação.

 

Não podemos ser utópicos a arquitetar fatos realísticos com hipocrisia, pois sabemos como um todo que há muitos registros dessemelhantes das ocorrências policiais quando a questão se trata da localização de um cadáver, declinável de acordo com o potencial intelecto de cada um, equacionada a múltiplas hipóteses do próprio entendimento e o bom senso, bem como aos códigos sucintos que mais se assemelha pela informatização, como “Homicídio”, “Suicídio”, “Encontro de Cadáver” e “Óbito no Local”.

 

Porque é evidente que todo pessoa encontrada com sua permanente parada encefálica irreversível não resta ambigüidade tratar-se de um “encontro de cadáver” ou “óbito no local”, por isso devemos empreender diligências para elucidar a origem daquela extenuação, se “homicídio”, “suicídio” ou “morte eventual”.

 

Se existem policiais militares melhores preparados, organizados e mais articulados quando se adentra ao circuito da cena e local de um crime, especialmente na visualização de um corpo, os quais voltados pelo instinto investigativo ponderam consigo mesmos pontos e contrapontos na tentativa de compreender as particularidades do acontecido, do mesmo modo também existem outros menos tênues voltados à resolução rápida da ocorrência, se não pelo enfoque estatístico da vulgarização criminal, mas sinteticamente á circunstanciar tudo como um mero “encontro de cadáver”, abdicando o alongamento da investigação concisamente a suscitar o (IML) para o seu pronto arremate.

 

Outros optam em acelerar seus afazeres somente a preservar o local para incorporação dos peritos, simplificados em declarar pelo ordinário “óbito no local”, movidos hipoteticamente pela incúria da resolução célere sem ao menos olhar fixamente nos olhos do cadáver e indagá-lo se foi morto por si mesmo ou se assassinado. Se por ausência de perceptividade, dedicação funcional, ou lapso metodológico não sei e não tenho jurisdição para avalizar, elegendo arrazoar tratar-se de motivos “enigmáticos” que na sua maioria acabam circunstanciando ementas adstritas, compilada e sintetizada, a pretexto de que não são Peritos Criminalistas e muito menos Médicos Legistas, desobrigados de conhecimentos de anatomia e fisiologia do corpo humano.

 

Devo elucidar com ênfase que todo o apresentado e circunstanciado não tem o escopo em detalhar desacertos ou mesmo enegrecer estilos adotados por suas infinidades metodologias observadas, razão pela qual eficazmente é explanar os paradoxos e buscar solução póstuma, tracejando conceitos e recomendando propostas pertinentes a todos os valorosos milicianos para se aperfeiçoarem nos atendimentos vindouros, notadamente em se tratando da cena de um óbito.

 

Todo o conteúdo basilar apresentado na enigmática tragédia no núcleo de um crime, por suas hipóteses e circunstâncias preliminares observadas, “causa morte” e seus pressupostos “liames delitivos”, ainda que ninguém soubesse, mas sempre me foi imprescindível a dirimir pontos essenciais na busca de uma equação racional, ordinalmente minutando relatório detalhado e depois o encaminhando a autoridade competente.

 

Em alguns casos mais tardios obriguei-me a fazê-lo diretamente ao Ministério Público ensejando suporte as oitivas subseqüentes que muitas vezes abrolharam na identificação e prisão do criminoso, razões pelas quais em múltiplas ocasiões acabei sendo arrolado como testemunha extranumerária, na qualidade de eqüidistante apenas com o escopo de ilustrar e minudenciar seus liames associativos.

 

Por situações distintas também fui perquirido em processos de júri examinado irrestritamente para a colisão de provas, delineando por livre arbítrio toda a coletânea aprimorada, elucidando invariavelmente todo o instrumento que até então se inibia a real cognição dos fatos, capítulos de minha biografia que seguramente meus eminentes comandantes nunca souberam, senão pela peculiar requisição de audiência judicial.

 

Por isso é que defendo intensamente e persisto que todo o policial militar deve ter noções basilares da (PNC) – (Percepção no Núcleo do Crime), procedimento indispensável e criterioso a encetar pelo cerne onde o delito foi praticado, uma vez que o local é seguramente a essência entre a ciência, a dialética e o código.  

 

Devo lembrar que para nós, policiais militares não há conclusão de diagnóstico da “causa óbito”, mas sim apenas hipotético indício de sua causa, tornando supérfluo arrazoar que jamais devemos nortear sobre procedimentos funéreos sem ao menos passar por uma análise pericial, isso porque absolutamente não existe “causa óbito natural”, tratando-se apenas de nomenclatura abreviada para designar falecimento, quando na verdade foi originada por falência encefálica irreversível da qual não somos capacitados para avaliar.

 

Por isso a ausência encefálica de um indivíduo absolutamente não diz respeito a sua condição econômica, que tanto o desprovido quanto o arquimilionário não se extinguem abreviadamente por “causa óbito natural”, que off-line dos seus potenciais econômicos, das suas contas bancárias, o falecimento seguramente se dá por falência encefálica.

 

É muito trivial ouvirmos a terminologia “óbito natural” quando no encontro de cadáver de mendicante embaixo de pontes e viadutos, levados somente pela visão circunstancial do seu ócio e pela pertinaz ebriedade, quando na verdade são apenas indicativos relevantes a considerar na investigação, isso porque no mesmo sentido é manifesto que esses excluídos ébrios embora coexistam no declive da sociedade, também tem envolvimento igualitário em meio aos seus conluiados, quase sempre entrando em desarmonia por motivos que para nós, policiais militares do outro flanco consideramos frívolos. 

 

Desigualmente quando no encontro de cadáveres de pessoas notórias e abastadas corriqueiramente não ouvirmos a terminologia “óbito natural”, isso porque neste caso há sempre um diagnóstico clinico pronto para designar suas pressupostas falências, habitualmente denominada por parada cardiorespiratória. Nesse caso significa que o coração (cárdio) e os pulmões (respiratório) interromperam seus funcionamentos, provocado evidentemente por múltiplos fatores, como por exemplo, a própria ebriedade pertinaz, overdose, infarto, afogamento, engasgo, perda de sangue, choque elétrico, envenenamento, e outras disfunções gerais.

 

De maneira que assim como um arquimilionário pode perecer de falência cardiorespiratória provocada por degeneração de órgão sobrecarregado de drogas ilícitas (overdose), um miserável mendicante pode do mesmo modo perecer de falência provocada por consumo de alimento deteriorado (envenenamento), mas por suas dessemelhantes biografias e visão circunstancial abrevia-se seus distintos óbitos, um por “insuficiência respiratória” e outro por insuficiência de abdicar o álcool “cachaceiro”.

 

Diligenciar no interstício de um crime a distinguir sensos e contra-sensos como numa espécie de isolamento dos seus infectos, a dirimir questões lógicas por suas causas, efeitos e porquês, como desavença por liame criminoso do tráfico e consumo de drogas, homicídios anteriores, crime patrimonial, vingança, passional, ódio, delírio e processo psicótico, podem transparecer aborrecíveis e tormentosos que teoricamente não levará em lugar algum, mas é totalmente antagônico.

 

Pois se o cadáver não confessar, não delatar espontaneamente seu algoz, e eventualmente o implicado se aprisionado também não admitir, as testemunhas se emudecerem, os indiscretos silenciarem, as paredes não cooperar, seguramente que por nossa aplicabilidade diligente e inflexível cedo ou tarde pelo código das “onze - letras” alguém revelará as minudências do crime, e isso é questão de tempo.

 

É como nas célebres paráfrases: “Não há crime perfeito, apenas mal investigado”. “Para cada crime há no mínimo um delator, mas é preciso sabedoria para encontrá-lo e fazê-lo delatar”. “Todos os criminosos são confessos, mas para isso é necessário saber ouvi-los, saber interpretá-los, com argúcia habilitada de profissional”. “Cada crime tem a sua peculiaridade, assim como os criminosos tem a sua personalidade, devendo ser explorada de acordo com o caso”. “Não há célula de crime típica, como não há provas típicas e muito menos investigação típica, pois tudo é completamente anômalo na ciência racional”.

 

O núcleo de uma ação criminosa pode divulgar infinidades de indicativos se for ela bem planeada, constituída e fundamentada, pois há elementos de convicção que todos os “cadáveres berram suas circunstâncias de morte”, mas para isso é necessário saber ouvi-los, saber interpretá-los, com ouvidos capacitados e éticos do ponto de vista estritamente profissional. Se fortuitamente o cadáver não falar, não desejar cooperar, tranqüilamente algum porta-voz falará por ele, notadamente um (X-9), e isso é infalível.

 

Durante todos os procedimentos investigativos preliminares de uma ocorrência, a prova física é somente parte de toda a equação, pois o objetivo essencial é dar sustentabilidade a identificação e condenação do autor, de maneira que todas as etapas da diligência no preservar e colher das provas será determinante para os aspectos legais processuais.

 

O reconhecimento do núcleo de um crime é elementar a nós policiais militares para carrear investigação a partir daquele instante, por isso devemos diligenciar com veemência e desenvolver uma abordagem sistemática para encontrar e visualizar o melhor conteúdo de provas possível, usando somente nossos olhos, ouvidos e nariz, devidamente conectados aos nossos raciocínios que será indispensável as demais ações da investigação.

 

Em se tratando de homicídio deveremos definir a extensão da cena do crime, e se existe uma única vítima e em quais circunstâncias, se em estabelecimentos comerciais, em veículos, em via pública, em cercados, no interior de residências, e demais constatações. Se há o envolvimento de veículos, armas de fogo, branca e seus tipos. Se há vestígios de sangue nas adjacências, onde, como, em que proporção, círculo, risco, coágulos e por demais minúcias.

 

A proteção do local implica na criação de uma barreira física usando cordão de isolamento, ou obstáculos como à própria viatura ou mesmo cavaletes, bem como para remover intrusos do local. Toda diligência preliminar é baseada no visualizar, ouvir e sentir, pois que as informações colhidas durante os procedimentos primários devem ser pela lógica do crime em si, isso porque não há padronização na investigação de um delito.

 

Devemos compreender que coexistimos guiados por uma mente racional pela qual observamos os conceitos da realidade factual pela visibilidade a olho nu, e os criminosos em seus momentos de desatinos acabam inexoravelmente sustentando seus verdadeiros conflitos existenciais brotados por um lapso de desordem cerebral que os escravizam pela própria consciência.

 

Fazer anotações e esboços é essencial para compreendermos o que de fato aconteceu no local e cena do crime, mas tem que fazê-lo com olho clínico, com acuidade e ambição profissional, ainda que a elucidação trazida à baila não legitime uma pressuposta justificação de origem real, mas com provas cristalinas, robustas, e concisas não restará paradoxo quanto à identificação do autor.

 

Enquanto um laico pode ver uma grande mancha cinza avermelhada no solo, por exemplo, saindo de um cadáver, e descrever: “sangue escorrendo do morto", nós policiais militares podemos perfeitamente descrever: "grande quantidade de fluído na cor cinza avermelhada dimanando do lado inferior do cadáver". Isso porque o fluído pode ser sangue, como do mesmo modo ser líquido proveniente da decomposição que, em certo estágio, se parece com sangue.

 

Para nós não existe cadáver “baleado a tiro”, (atirado), “com faca fincada no peito”, (esfaqueado), com “gargalo de garrafa no pescoço” (gargalhado), “com pau na cabeça” (paulada), “com ferro na barriga” (ferrado), pois as vítimas devem ser respeitadas autônomas da sua biografia criminal, e tratando-se de homicídio com características aludidas, foi à morte provocada em conseqüência de violentação por objeto contundente, podendo ser perfuro, por dilaceração ou mesmo arremessamento.

 

De costume que não precisamos ser conhecedores da ciência do lexicógrafo Dr. Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, nem mesmo entendedor das técnicas periciais cientificas de biologia, física e química dos afamados Fortunato Antônio Badam Palhares e Guido Palomba, muito menos das doutrinas do cientista e criminologista Italiano Cesare Lombroso para compreender concisamente que um projétil (perfura), uma faca (dilacera) e um pedaço de madeira (golpeia). 

 

Não se dá relevância a opiniões e suposições desconexas durante a investigação na cena de um crime, devendo-as, via de regra ser descartadas, pois ao deparar-se com o núcleo da cena de um crime devemos fazer observações factuais sem esboçar quaisquer conclusões. O objetivo da fase de coleta de provas é encontrar, reunir e preservar todas as evidências físicas úteis para reconstituir o crime e identificar o criminoso, fazendo com que ele seja levado ao tribunal e sentenciado.

 

Com as teorias do crime em mente devemos principiar buscas sistemáticas de evidências que possam incriminar o autor, fazendo levantamentos meticulosos ao longo da investigação, de maneira que se há um corpo no local, obviamente a investigação começará por ele.

 

Não somos quiméricos e nem tão pouco sensitivos, uma vez que não existem duendes, extra-terreste e fantasmas, que pelo juízo coerente estarão rejeitados os sacis, os bonecos assassinos, as loiras insidiosas dos banheiros e todas as demais lendas burlescas dos contos infantis. Sem turnês pelo tempo em busca dos conhecimentos precários do ancestral Vigilante Rodoviário e muito menos dos ilusionistas modernos CSI, pois trabalharemos com informações baseadas em fatos reais diante a cena de um crime.

 

Dificilmente na cena de um crime, na efervescência da ocorrência seremos contemplados por alguma testemunha que na presença de todos levantará os braços e em altos brados se apresentará espontaneamente para circunstanciar o acontecido, porque certamente ficará assinalada pelos indiscretos como alcoviteira. Mas é certo que em meio aos curiosos existem muitas pessoas irrequietas para delatar os fatos, por isso é necessário passar os olhos discretamente ao alcances dos olhares e procurar decodificar qual delas realmente deseja falar, e de maneira sensata identificá-la para conversa reservada.

 

Considerando que as provas podem ser de toda ordem, devemos ainda observar as mais típicas existentes na cena do crime, como arma de fogo, arma branca, pedregulho, madeira, entorpecente, cartuchos, estojos, projéteis, resíduos físicos, objetos danificados, perfurações contundentes, fluídos como sangue, saliva e vomito. 

 

O corpo poderá apresentar infinidades de informações necessárias à elucidação do crime, como manchas ou marcas na roupa, contusões, entorses, cortes ou marcas pelo corpo, feridas causadas ao se defender, ferimentos, consistentes ou não, indicando a causa preliminar da morte; se há alguma coisa faltando ou sobrando; se existe marca de sol onde deveria haver um relógio ou aliança; se o sangue está presente em grandes quantidades; se a direção do fluxo segue as leis da gravidade; em caso negativo, o corpo pode ter sido movido; se não há sangue na área em volta do corpo; se isso condiz com a causa preliminar visual da morte; em caso negativo, o corpo pode ter sido movimentado; se, além do sangue, há outros fluidos corporais presentes; se há presença de insetos sobre o corpo; em caso positivo, somente um entomologista forense desvendará a quanto tempo à pessoa morreu; a posição do corpo ao solo elucidará tacitamente se foi instintivo pela comodidade ou se foi desabado pelo desfalecimento.

 

Precavermos o máximo em relação aos locais de hipóteses de impressões digitais deixadas pelo criminoso, pois elas seguramente estarão estampadas tanto nas superfícies porosas quanto as não porosas da cena de um crime. Como as armas abandonadas no local, ou mesmo em maçanetas, utensílios domésticos, toalhas, papel, madeiras, vidros, plástico, metal, e madeiras, que por suas superfícies latentes irão determinar onde o criminoso tocou.

 

Não podemos descartar nenhum tipo de vestígio, pois todos devem ser levados em consideração, incluindo resíduos de pólvora se eventualmente visualizar a olho nu, resíduos de tinta, produtos químicos, drogas lícitas e ilícitas.

 

Em havendo sinais de entrada forçada através das portas, as superfícies das maçanetas do lado de fora são lugares lógicos para se procurar impressões digitais, o que certamente deverão ser preservadas para um trabalho pericial.  Devemos deslembrar dos contos burlescos do intitulado Sherlock Home, e do seu cúmplice Dr. Watson, bem como dos embustes seriados televisivos Monk – um detetive medíocre e demente, com também do fantasioso CSI, quando na verdade um simples toque com lenço ou mesmo usando luvas cirúrgicas as provas serão comprometidas e inevitavelmente prejudicadas na captação de uma impressão digital.

 

 Não apagar. Não deformar. Não manipular. Não corromper. Não adornar. Não prostituir. É um conjunto de elementos proibitivos que ouvimos inflexivelmente nos meios policiais, e preocupar-se para que isso prospere é capital para os procedimentos elucidativos de um crime.

 

Marco Antônio Desgualdo, Delegado de Polícia no Estado de São Paulo foi considerado um dos melhores investigadores que a polícia civil já teve no (DHPP), que ao chegar à cena de um crime levantava todas as hipóteses e possibilidades, observava tudo meticulosamente, depois investia e instruía-se das minudências a tentar compreender o que de fato acontecera no local. Dizia ele que o cadáver lhe confidenciava.

 

Verdadeiro ou falso? Absolutamente trata-se de uma metáfora para designar experimento na lide, isso porque notoriamente é sabido que na grande Capital Paulista devido a sua conjuntura geográfica populacional os crimes de homicídio são mais inflexíveis, e isso leva qualquer indivíduo dotado de ambição e dinamismo profissional a capacitação de ver as coisas como realmente são, aferindo seu sexto sentido com visão de desafios em busca de melhores resultados, o que tranqüilamente pela experiência levara Desgualdo a trocar hipotéticas confidências com seus cadáveres.

 

Para Desgualdo em todos os corpos das vítimas é possível encontrar pistas importantes a sua elucidação, basta querer ver.  Por exemplo: se houve luta corporal, em geral, sob as unhas do morto pode haver pele do assassino. Fios de cabelo e pêlos do corpo. Por isso sempre recomendara, toda a atenção é necessária. Muitas vezes, sabendo destes detalhes os assassinos tentam mascarar a cena do crime e até tomam alguns cuidados como operou os criminosos Suzane Richtofen, e os irmãos Daniel Cravinhos e Christhian Cravinhos.

 

Segundo ele, Suzane Richtofen por ser estudante de direito e acreditando que sabia tudo planejou antecipadamente diferentes artifícios para o crime, dentre eles fazendo a aquisição de meias-finas (femininas) para que usassem nas pernas, mãos e cabeça no momento da carnificina. Seu objetivo era límpido em não deixar pêlos no quarto do casal, o que depois de recolhidos os implicariam fatalmente. Esse recurso deu certo porque não foram encontrados nem pêlos e nem cabelos no local e cena do crime, mas o resto do plano falhou e ela acabou presa e confessando o crime, pelo qual foi sentenciada juntamente com seus cúmplices.  

 

O Delegado Desgualdo também faz referência a um outro bom resultado no caso de um assassinato ocorrido tempos atrás. O homicida, ao fugir do local deixou uma marca de pisada do seu tênis no sangue da vítima e depois no solo. A perícia fez um trabalho perfeito e descobriu o número do tênis e o modelo.  A polícia então fez a sua parte e achou o suspeito, um aluno que tinha um tênis idêntico. Assassinou seu professor no apartamento dele, na Avenida 9 de julho em (SP).  

 

Noutro caso também mostrou a importância da preservação do local do crime, destacando como foi fundamental o trabalho pericial na solução do caso. O casal estava com o casamento marcado para menos de um mês antes do crime. Numa noite de sexta-feira, a moça foi encontrada morta na banheira do seu apartamento. Foi o noivo quem encontrou o corpo. Acionou a policia militar que isolou perfeitamente o banheiro. A perícia constatou que não foi acidente, porque havia água nos pulmões da vítima, o que significava que ela havia sido afogada.

 

O noivo passou a ser o principal suspeito. Ao ser perquirido declarou que chegou ao apartamento às oito da noite e que ela já estava morta, tendo chamado a polícia militar imediatamente. O horário do telefonema dado à polícia realmente foi às 08h04min. Mas seu álibi desmoronou quando o porteiro disse que o tinha visto chegar às seis da tarde e não às oito. A perícia comprovou que a morte tinha ocorrido por volta das seis e quinze, colocando o suspeito quase duas horas antes do acionamento da PM na cena do crime. Foi através da decantação do sabonete no corpo que a perícia determinou à hora da morte, um trabalho meticuloso que levou o assassino a cadeia. Sem saída, ele acabou confessando que matou a noiva porque estava apaixonado por outra mulher.

 

No caso do assassinato do Coronel Ubiratan, morto em setembro de 2006, em (SP), cuja principal suspeita é a própria noiva, a advogada Carla Cepollina, os trabalhos preliminares adotados pela polícia militar e depois pela perícia foram fundamentais para dar subsídios às investigações, ao determinar a hora do crime, a posição do atirador e o fato de não encontrar no apartamento nenhuma impressão digital que não pertencesse ao próprio casal.  

 

Em que pese o presidente do 1º Tribunal do Júri de São Paulo, Juiz Alberto Anderson Filho, rejeitar a denúncia e considerar que não existem provas contra a Advogada Carla Cepollina, alegando que ela foi à única investigada no crime e que faltou aprofundamento na investigação, foi o trabalho pericial bem delineado ratificando haver impressão digital apenas do casal no apartamento.

 

Inversamente ao entendimento do magistrado, o promotor do caso, Dr. Luiz Fernando Vaggione, afirma categoricamente que Carla Cepollina mentiu em seus interrogatórios, pelo qual persistirá para que o caso seja reaberto e ela denunciada por homicídio duplamente qualificado, motivo fútil (ciúme) e recurso que impossibilitou a defesa da vítima. Para o promotor não resta a menor dúvida, ela cometeu o crime por vingança, ao ver-se rejeitada pelo namorado.

 

De modo que todos os primeiros elementos de convicção no núcleo de um crime devem ser visualizados, ouvidos e sentidos por nós policiais militares com olhos entusiasmados, ouvidos geocalibrados e sentidos dinamizados, a compilar todo o circunstanciado numa espécie de análise para nortear e dar sustentação a continuidade das diligências, conhecimento basilar que todos devemos aquilatar, não somente pelas amostras equacionais e subsídios apresentados no cerne do crime, na ebulição da ocorrência, delineando conhecimentos dilatados e minuciosos por seu estratagema, conexão, hipótese e convicções presumíveis do arquétipo delitivo, como essencialmente o seu “modus operandi” e os pressupostos liames por sua exposição.  

 

Toda essa composição dialética que o policial militar deve adotar ante a cena de um crime, ainda que subsidiada por elementos hipotéticos vislumbrados no seu núcleo, deve ser capital de cada policial, ciência robustecida pelo seu eu peculiar profissional, dotado de eximia imparcialidade, e ponderação concludente a recomendar indicativos de autoria, elucidação delineada de forma inequívoca, a integrar no futuro um rol de articulação pelo acervo de fatores de convencimento, que, face à coerência e a coletânea de subsídios não admitirão equívocos na sua apreciação.

 

Tomando todos os procedimentos basilares minuciosos e avaliativos na cena e local de um crime, extinguindo seus paradoxos, aquilatando conhecimentos da sua composição e elementos de convicção, inexoravelmente o policial militar fará sobrelevar a aplicabilidade da lei penal, pelo qual se sentirá intimamente reconhecido pelo caráter da ação.  

 

“A percepção do desconhecido é a mais fascinante das experiências, pois o homem que não tem olhos abertos para o misterioso passará pela vida sem ver nada, além do que, o mundo é um lugar perigoso de se viver, não por causa daqueles que fazem o mal, mas por causa daqueles que observam e deixam o mal acontecer”. (Albert Einstein...).

  

 

Navegantes/SC, (18), de Janeiro de 2009.

 

 

 

Milton Lopes dos Santos

Cabo PM RR - 916674-2